Causos Mineiros


Alguns causos mineiros são sempre engraçados de se ouvir, e quando é contado por um típico mineiro, aí sim a história muda de figura. Abaixo segue alguns textos que me foram autorizados a publicá-los pelo autor Eurico de Andrade.

A Fotografia

Lá no Tabuí acontece muita coisa. Umas engraçadas, outras boas ou tristes e umas até muito ruins. Como em qualquer lugar do mundo.

Mas também acontecem coisas misteriosas…
Vitalino, cansado da mulher, já amarrotada e gasta pela vida, arranjou namorada. Tudo debaixo de segredo grande. Saía da suas terrinhas, de uns quatro ou cinco alqueires, distantes quase uma légua, e ia bater na cidade, toda tardinha, levando ovo, abóbora, galinha, banha e banda de porco, lingüiça e o que mais pudesse.

Abastecê a dispensa da Mariinha, mode ela ficá fortona… pensava ele com seus botões. Voltava para casa tarde da noite, refestelado, olhava tristonho pra cara da mulher, à luz da lamparina, dormindo pesado, cansada da labuta diária, deitava e também dormia. Zefinha, cheia de amor e respeito, não abria a boca para falar um a, mesmo notando mudanças no marido. Mariinha, com o tempo, é que mudou o comportamento.
– Óia, Vitalino, quero que ocê vem aqui agora só uma vez na semana, nas quarta-feira, tá bão?
– Mas pruquê, Mariinha? Ce num qué mais ieu?
– Né isso não, deixa de sê bobo, home! E, quando cê vié, traz bastante coisa de cada vez, viu? Arroz, feijão, farinha, fubá, carne e mais misturas, tá bão?
– Tá bão, Mariinha… só quarta-feira?
– É. Só te recebo na quarta-feira. Nos outros dias, nem pensar. Quero descanso.
Mariinha era moça nova, fogosa, bonita, bem menos da metade da idade do Vitalino, que chegava a mais de quarenta. A moça, saída da roça, aprendera logo manha da cidade, até a conquistar homens usando o corpo e viver às custas deles. Chegada em sexo, se esvaía e se contorcia de prazer, trazendo juventude àqueles seus parceiros insatisfeitos, quase nunca bem servidos em casa. A cada noite, a horas e dias marcados com rigor, chegava, sorrateiro, homem naquela casinha de canto de rua, com sacolas, sacos e outras bruzundangas.

Poucos novos. A maioria, caindo pelas tabelas, mais pra lá do que pra cá, mas serelepes para ver a amada, cada qual pensando ser sua única paixão. Mariinha, pelo jeito, sabia agradar a todos. Segredo se fazia necessário. Quando não casados, comprometidos com moças da alta grã-finagem de Tabuí. Segredo do negócio era fazer segredo do ofício.
Ao único amigo, sabedor da história do Vitalino – e doido para entrar de sócio – que perguntara porque ele não mais estava indo amiúde à cidade, o apaixonado respondeu simplório:
– Quero cansá ela não, sô! Só vô quarta-feira que é quando ela mandô. Sou home bedecedô, uai!…
Certo dia, Vitalino resolveu mudar a situação.
– Cê casa c’oeu, sá?
– Casar? Como, se ocê já é casado?
– A gente dá jeito, uai!
– Então dê!
Mariinha até chegou a considerar ter umas terrinhas, assim na beira do rio, todas planas, plantadas, cheias de frutas e criação, com casinha boa. Mas, depois, pensou na responsa de cuidar de casa, fazer comida pra pião, tratar dos bichos, lavar roupa e ter um homem só, sem ganhar nada… bobagem, sô! Quero é vida mansa!… espantou pensamento e esqueceu a proposta.
As visitas do Vitalino continuaram até que, no dia do aniversário dela, ele propôs:
– Bamo lá em casa, Mariinha?
– Lá? Fazê o quê?
– Drumi cumigo, uai!
– E sua mulher, homem de Deus?
– Ta lá mais não. Foi embora!…
Vitalino queria que ela, acobertada pela noite, conhecendo suas posses, resolvesse de vez ficar com ele, agora casando, já que a mulher fora embora. Mariinha montou na garupa, já tarde da noite, sem olhares bisbilhoteiros e fiscalizadores e foram. Não sem antes passar no Tõinzin retratista.
– Quero tirá retrato c’ocê lá em casa, sá! Lembrança da primeira noite em nossa casa…
Tõinzin colocou o casal em várias poses e cômodos diferentes, mas não dava certo. Uma sombra sempre atrapalhando o foco. Desmontou a máquina, limpou, lavou, soprou e nada. A sombra persistia. Vitalino, cansado de poses com a Mariinha, querendo ficar a sós com ela, para os principalmentes, mandou o Tõinzin bater assim mesmo.
– Bamo vê no que vai dá, uai!
Surpresa na hora da revelação. A sombra tomou forma. Bem atrás do casal de amantes, o corpo de uma mulher deitada. Mandada a foto para investigação, desvendou-se o crime e foi encontrado o corpo da Zefinha, enterrado no canto do quarto, debaixo da cama, onde ela, por anos e anos seguidos, dormira com o seu amado.

Mais Logo Numa Moita…

Lá no Abacaxi, currutela de uma rua só, a muitas léguas de Tabuí, era noite de lua cheia. Tempo fresco e época de colheita. Todo mundo gente muito simples. Divertimento com aquela lua toda era uma baita festa ao som duma viola doída, uma boa sanfoninha reco-reco, um cavaquinho e um pandeiro. Cada um arranhando mais que o outro. Imitando caipiras de fama. Aqueles do rádio.

Cantadores cantavam cantigas apaixonadas, com olhinhos até fechados, sonhando com sucesso fácil da cidade grande. Bem diferente de ter que enfrentar cabo de guatambu dia-a-dia.

Festa cada vez mais animada. Tanto dentro quanto fora do rancho. De terra batida. Forquilha no meio para segurar a cobertura de sapê. Lá fora só movimento. Homens e mulheres, cansados de tanto arrastar o pé e balançar o esqueleto, tomavam uma branquinha pra esquentar o peito, proseando enquanto queimavam um pitinho.

Lua cheia, misturada com noite fresquinha e pinguinha, clareava e contribuíam para o bom desenrolar dos proseamentos.

Enquanto isso, no salão, lotado, dança corria solta. Rela-rela pra tudo quanto é canto. Lá no Abacaxi ninguém cuida da vida do outro. Sem futricas. Cada um faz o que acha certo, é respeitado pelo que é e pelo que faz. Mas num cantinho mais escuro, embora ninguém nem olhasse, tinha um casalzinho que garrou a dançar no comecinho da festa, assim que o sol se pôs, e não parou mais.

Não parou é maneira de dizer. Porque parados, no meio do rancho, ficavam tempão danado. Agarradinhos. Coisa com coisa encostadinha e latejando.

Lá pelas tantas da madrugada, rancho abarrotado de gente, contrário do clima lá fora, calor derretia neguinho. Até tocadores deixaram de sonhar e já reclamavam. Sanfoninha espumando melecada de suor. Pandeirinho nem mais respondia à pandeiração. Só casalzinho tava nem aí. Dançava e dançava cada vez mais agarradinho, esfregando as coisas, no bem-bom, olhinhos até fechados. Queriam que o mundo acabasse em moita. Com aquela quentura toda não teve outro jeito. Rapaz garrou numa suadeira danada. Molhado dos cabelos da cabeça até a ponta do dedão do pé grande. Mocinha também. Ruge escorria naquele rostinho aveludado. Vestidinho de chita todo molhado, grudado no corpo, mostrando formas apetitosas. Músculos fortes de uma cabrocha do sertão. Assim meio tonta, resolve falar alguma coisa para o desejo contido arder menos. Abre um olhinho… O outro olhinho…

Desgruda a cabecinha do peito do mancebo e diz pra ele, caprichando e dobrando a língua nos pronomes:

– Mas você sua, heim?

E o rapaz, sonhando com o mais logo numa moita, candidamente, sem nem pensar, responde rapidinho:

•  E ieu tamém vô sê seu!!!…

As marcas da aparência

Lá em Tabuí tinha um negão brilhoso, azulado e teimoso. Tão teimoso que ficou rico zunhando daqui e dali, fazendo umas malandragenzinhas, sempre muito dentro do pãodurismo. No começo todo mundo o conhecia por Pitoco do Rolamoça. Depois, na abastança, virou senhor Epitácio da Silva.

Ai de quem o chamasse pelo antigo nome. Era cacete na certa.
Mas o senhor Epitácio da Silva não estava satisfeito com a vida de rico só não. Enricara e queria mais. Era ambicioso e orgulhoso. Passou a querer caber onde muita gente achava que ele não cabia. Povo racistazinho o de Tabuí!… A coisa começou a entornar o caldo para o lado do Epitácio quando ele resolveu que era hora de entrar para a política. Logo o Epitácio que mal conseguia juntar as letrinhas para escrever seu nome, querendo virar político!…
– Eles tão no bem-bão e eu tamém quero entrá nessa. Quero ajudá a resorvê os pobrema do país…

Como todo político que se preza. Foi lá no vigário pedir aconselhamento e orientação.
– Sô vigaro, tô com dois pobrema…
– Sim, figlio mio? Qual o segundo?
Padre Anacleto, embora sotaqueando, gostava muito de perdoar atentados gramaticais de qualquer um não. Muito menos do senhor Epitácio da Silva que todo mundo, dentro do confabulamento, sabia qual era seu sonho.
– Sabe, sô padre, quero entrá na política e quero sabê o que qui o senhor acha.

Quero ajudá muito o sinhô e a igreja, se Deus quisé!
– Olha, senhor Epitácio, io num acho niente, muito menos pelo contrário.
– O senhor acha que dô para político?
– Io non lo so! Mas digo-lhe que se o signore tem um sonho e pode tentar executá-lo, que tente! E veja no que dá.
– Pois é sô vigaro. Acho que posso ajudá a resorvê a pobremada do Brasil rapidinho.

Já tenho uns projeto…
– Si, signore Epitácio da Silva. Todos pensam assim no começo. Depois é só venha a nós. Mas seja o que Deus quiser!… Fé n’Ele e pé na tábua.
Senhor Epitácio da Silva, todo aperuado, começou campanha política com festanças e discursos que poucos entendiam. Dava botinas pra tudo quanto é homem e cortes de chita e de chitão pras mulheres.

Tornou-se o maior caridoso da paróquia. Seu negócio era virar deputado estadual de qualquer maneira. Ir pra capital. Ser respeitado… Sair no jornal, na televisão… Seria a glória.
Para parecer uma pessoa importante, candidato Epitácio comprou um carrão último tipo.

Naquele tempo o carrão de gente importante era Itamaraty. Foi nesse mesmo que nosso amigo começou a cortar o mundo e a mostrar sua riqueza. Dificuldade danada para aprender a dirigir. Analfabetismo brabo. Mas aos trancos e barrancos Epitácio ia levando seu nome pra todo lado, até nos confins de Tabuí. Todo mundo já conhecia o negão, aquele do carrão. E o pessoal começou a achar que o Epitácio era homem esforçado e que, sendo rico, não ia precisar roubar quando entrasse na política. Esses baratos todos…

Voto de muita gente tava garantido, principalmente daqueles que, vendo nele um raro exemplo da raça que se sobressaia na riqueza, despejaria voto no conterrâneo.
Depois de conquistar Tabuí, senhor Epitácio da Silva resolveu levar seu nome para o conhecimento da vizinhança. Outras cidades. Pequenas como Tabuí. Primeiro, Uruburetama. No caminho, deu carona para um abotoadinho de paletó e gravata, empertigado, que carregava Bíblia e pastinha. Uma em cada mão. Era um pastor protestante batalhador, testemunha de Jeová, disposto a arrebanhar ovelhas pro seu rebanho assim como nosso herói arrebanhava votos.

O pastor assentou no banco traseiro do carro e lá se foram os dois papeando. Epitácio na frente, choferando, e o pastor atrás. Chegam ao posto de gasolina na beira da estrada. Poderia ser mais um voto o do rapaz da bomba.
– Compreta o tanque, meu pobre rapaz! O rapaz ficou foi aziado com o tratamento.

Pensou: “pobre é a mãe”. Mas fez o serviço.
– É treis mil cruzeiro! O candidato, mais que depressa, dá uma nota de cinco mil novinha, junto com um santinho da sua campanha e diz:
– Pode guardá o troco! O rapaz, também analfabeto, satisfeito com tanta bondade, julgando que o do banco traseiro, o do terninho, é que era o dono do carro, foi para a janela traseira e se desmanchou em agradecimentos:
– Deus lhe pague, meu senhor! Hoje minha muié e meus dois fio vão podê jantá!… Deus te dê em drobo, meu patrão!
O pastor, caladinho, não sabia o que dizer, tão cômica a situação.

E o Epitácio, tão enfezado que nem olhava para trás, pensava consigo mesmo: “que desaforo, eu sê cunfundido com um pé rapado desses, como se ele fosse o dono do carro e o doadô da gorjeta…”
Disse então ao pastor, depois de muito craniar:
– O senhor sabe dirigir?
– Sei, sim senhor!
– Então passa pra frente. Fica’qui no meu lugá! Depois de andarem mais um bom pedaço, param noutro posto para botar mais combustível.

O empregado, um gorducho bonachão, encheu o tanque, sem tirar um riso zombeteiro e um palito do canto da boca. Epitácio passa cinco mil para o pastor pagar dois mil e quinhentos e repetir a história de antes.
– Pode ficar com o troco, meu amigo!
O gorducho, muito satisfeito, agradece, cheio de palavras, ao pastor. Depois se dirige ao negão piscando um olho e retirando o palito do canto da boca:
– Aí negão! Pegano carona, heim? Mal eles somem de vista do posto, o candidato manda parar o carro. Resolve abandonar o pastor e voltar pra sua Tabuí. Desanimado e puto da vida.
– Sô vigaro, quero mais sê político não. Vô pará. Quem nasceu pra sê Pitoco, num consegue chegá a Sua Excelência senhor Epitácio da Silva nunca não!…Inté!

Novidades da Cidade Grande

João Geada. Velhinho roceiro. Morava no Pindura Saia, a umas três léguas de Santa Maria do Tabuí. Branquicento. Sistemático. Caladinho e trabalhador. E tinha que trabalhar muito, pois, na base do silêncio, conseguiu, com a sua Jandira, fazer quase uma dúzia de barrigudinhos. Tratar de toda aquela cambada não era fácil.
Certo dia velho Geada inventou de ir à capital. Visitar Bel’zonte vez primeira. Fazer umas comprinhas. Isso vinte ou trinta anos atrás. De trem de ferro. Achou tudo muito bom, muito importante, muito bonito.

Cada predião danado. Povão medonho na rua. Uma carraiada de dar gosto. Tanto movimento que o velho Geada tava até ficando agoniado. Mas uma coisa deixou o nosso amigo muitíssimo impressionado: o picolé. Gostou exageradamente daquela pedrinha fria que derretia e que tinha um pauzinho enfiado no trazeiro.

Chupou um, dois, uma dúzia. De gostos e cores variadas.
– Ô trem bão, sô! Tem base não! Vô até levá uns pra Jandira e pros minino, uai! Imbruia uns vinte aí, ô moço!…
Saiu satisfeito com o pacote de picolés dentro de um saco, junto com uns troços que tinha comprado – açúcar, farinha de trigo e de mandioca, fubá e polvilho azedo – e foi pra estação pegar o trem. Viagem de mais de cem quilômetros.

Deixou o saco perto da porta do carro de passageiros e procurou um cantinho pra se sentar. Queimou um pitinho, deu umas proseadas com uma velha gorda que o espremia no canto do banco e um coque na cabeça dum neguinho que pisou no calo do seu mindinho do pé.
Numa certa hora, João Geada resolveu dar uma esticada nas pernas e foi ver se estava tudo em ordem com o seu saco de bugigangas.

É claro que os picolés tinham virado água, molhando tudo que tava no saco, derretendo até o quilinho de açúcar que viajava junto. Tudo melecado e a água melada escorrendo. Velho Geada entendeu nada.

Ficou foi brabo. E mesmo sendo um homem caladinho e tímido, não levava desaforo para casa. Foi por isso que, fulo da vida, gritou pra todo mundo ouvir:
– Cambada de viado fedaputa ! Além de chupá meus picolé, inda mijaro no meu saco!…

Nós Sofre Mas Nós Goza

A jardineira que carregava o povo de Tabuí era desengonçada. E põe desengonçada nisso. Mas o dono da dita cuja, o Vivaldino, homem caprichoso e cheio das invenções, sempre tava arrumando uma melhoria na sua máquina de ganhar a vida. Arruma daqui, arruma dali, a coisa foi melhorando.

O máximo mesmo foi quando ele inventou de colocar uma porta na traseira da dita cuja e uma catraca com o cobrador no meio do corredor. Povo de Tabuí ficou tão orgulhoso da sua empresa de transporte que nunca mais a jardineira viajou de banco vazio.

Todo mundo queria experimentar a novidade que, segundo se dizia, sem tirar nem pôr, era igual aos coletivos de Bel’Zonte. E Vivaldino, vivo pra danar, ganhando dinheiro. Carregava gente, galinha, porco, bode, pato, ovos, saco de carne, abóbora, tudo, em troca de uns trocados.

Foi aí que um dia entrou o velho Honorato com sua cara metade, a Honorina e mais umas muquiças na jardineira. Indo pra Tabuí. Se ajeitaram como puderam. Jardineira quase desmontava nas subidas e descidas.

Ar parado. Sol do meio-dia. Calor de matar. Fedentina braba. Poeira sufocante deixando todo mundo meio bazé. Honorina, de pandu cheio, vendo aquilo tudo, sentindo aqueles cheiros, vendo as árvores passando de carreirinha, ouvindo a conversa mole do Tõe Carapina, com bafo de cachaça misturado com cheiro da gasolina, começou a sentir tonteira. Honório não teve conversa e soltou o verbo:

– Pára! Pára! Pára aí, Vardino!

Vivaldino, todo cheio de paciência, pára a condução, olha pra trás e pergunta:

– O quê que foi home de Deus?

– É a muié qui tá cum pobrema, sô! Nóis vai descê um tiquinho! Péra aí!

Desceram. Honorina respirou um ar mais puro, sem poeira e fedentina, e melhorou.

Toca a jardineira. Tõe Carapina, com a garrafa da Providência no bolso trazeiro, de vez em quando dava uma bicada para molhar a palavra. Soltava o verbo e ficava cada vez mais bêbado e chato contando potocas e piadas sem graça e até inconvenientes. Ninguém mais tava agüentando sua conversa mole na parte traseira da jardineira, de pé e trocando as pernas.

Aí é que entrou a madama. Gente fina, com jeito de cidadã. Todo mundo viu. Sapatos de salto alto. Batom vermelhinho nos lábios. Bolsa das mais chiques no ombro. Vestido verde, longo e decotado. E um perfume!… ôta perfume! Daqueles que atraem qualquer nariz.

Madame, toda dengosa, com passo de veada e nariz arrebitado, não olha pra ninguém. E tava injuriada sentindo a capiauzada silenciosa de olhos pregados nela. Tõe Carapina, o bebum, de butuca, ficou de boca aberta e foi seguindo a recém-chegada pelo corredor da jardineira. Acontece que a madame, ao fazer força para passar na catraca, se descuidou um pouquinho e deixou escapar um sonoro pum.

Todo mundo volta a olhar para a distinta, agora, com cara de surpresa e reprovação. Mas nem precisava. Ela já não tinha onde botar a cara. Vermelha como um pimentão maduro. Pum todo mundo solta mas, assim, vindo de uma madame, ele tinha uma cor muito especial. Ela passa pela roleta, passa pelo Honório mais a Honorina e vai lá pra frente, sem nem olhar de lado, tonta de vergonha.

Mas voltemos ao Tõe Carapina. Passa também pela roleta e vem vindo meio cambaleante.

Cai aqui, cai acolá… Senta no colo dum negão que lhe dá um chega pra lá. Aí vem pra bem junto da madame e, todo serioso, dá mais uma bicada na Providência e, meio consolativo, fala bem alto, pra todo mundo ouvir:

– Dona madama! Fica com vergonha não, tá? Hic!… óia, todo mundo peida, sá! Óia, motorista peida, cobradô peida, hic!… eu peido, aquela véia peida… hic!… fica com vergonha não, tá?

Madame não tinha onde colocar a cara. Honorina, quando viu ser citada como “aquela véia” que peida e os passageiros olhando para ela com cara de riso, não agüentou. Passou mal outra vez. Chamou o juca com todo o entusiasmo. Uma parte do vomitado lambuzou o vidro e a outra foi misturar-se à poeira da estrada. Honorina cutuca no Honorato e gunguna umas coisas tampando a boca com a mão. E o velho outra vez põe a boca no mundo:

– Pára! Pára! Pára aí, Vardino! A muié tá com pobrema de novo!

– Que que foi dessa vez?

– É que ela foi lançá e gumitô a dentadura!

– Foi longe?

– Não… foi bem ali acolá lá atrais! Dá uma macharré pa trais, dá Vardino!

Vivaldino engata uma marcha-ré na jardineira que volta sacolejando de má vontade uns cem metros.

– Pára! Pára, Vardino! Foi aqui!

Honorato desceu. Procurou a danada da dentadura tempão danado enquanto a Honorina ficou dentro da jardineira tampando, com a mão, a boca murcha. Depois de um bom tempo, volta o Honorato, meio triste e com cara de nervoso.

– Uai, Honorato, num achô a dentadura não?

– Uai, sô! Inté que achá ieu achei! Mas num é que a rodera passô in riba e ismigaiô ela?

Falta de assunto

Um dia Zé Ruela arrumou namorada em Tabuí. O rapaz era da roça, mas não perdia festa na cidade, doido pra arrumar uma doida e se ajeitar na vida. Só que Zé Ruela era fraco de inteligência e muito tímido. Ficava sem assunto em presença de rabo de saia. Mas sabia que, com moça da cidade, tinha que ser conversador, tinha que passar a lábia, senão a pretendida desistia.
Primeira vez que foi à casa da moça. Um sufoco. Vestiu sua melhor roupinha, colocou botina gomeira e botou perfume no cangote. Andou bem mais de uma légua até Tabuí.

Chegando à casa da distinta, foi apresentado aos pais, pôs as mãos no bolso e não sabia mais o que fazer. Ainda bem que ela pegou cadeiras e foram os dois para a porta da rua, para ficarem mais à vontade. Zé Ruela, doidinho para agradar, caça assunto em tudo quanto é cantinho da cuca e não acha. Cérebro embotado. Até que surge uma idéia que ele, sem nem pensar muito, casca na namorada.
– Cê já viu onça?
– Eu não!
– Se ocê vê, cê caga!…
A moça deu um sorriso amarelo e começou a achar que entrara numa canoa furada. O Zé, sem desconfiômetro, acreditou que estava agradando. Mastiga outra idéia na cuca e solta:
– Cê já foi mordida de cobra?
– Eu não! Credo!…
– Dói!…
A namorada, agora com certeza de ter entrado em canoa furada, começa a pensar numa maneira de descartar o Zé Ruela. Mas ele ataca de novo:
– Lua bonita, né?
– É…
– Boa pra gente andá no cavalo do vizinho, né?
Nessa hora ela não resistiu e deu uma risada. Teve dó do desajeitamento do rapaz. E ele, pensando que estava por cima da carne seca, comete um atrevimento. Pega no dedinho mindinho dela e fica balançando pra lá e pra cá. A moça, querendo ver no que ia dar, deixou. E Zé Ruela fica lá, balançando o mindinho da moça enquanto assunto não aparecia. Finalmente, cúmulo da intimidade, olhando pro dedinho dela, fala:
– Benhê!… Eu te quebro o dedo!…
A moça, que não esperava por um papo desse tipo, desafia:
– Então quebra!
E ele:
– Trac!!!…
Quebrou o dedo da donzela e o namoro, mal começado, acabou ali mesmo.

Sobre ritapolis

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Uma resposta para Causos Mineiros

  1. kaah disse:

    Kkkkkk. Adorei as placa axu multi lesgal. Mai num li U testu. Kkkkkkkkk

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