Causos Mineiros


Que mineiro gosta de contar causo, todo mundo sabe! Mas, contar causos são uma forma do mineiro proziá, se achegar mais aos amigos.  Vocês já devem ter escutado de seu  pai ou de seu avô, alguma história engraçada, ou algum fato que lhes aconteceram quando ainda eram meninos! Com os mineirinhos, é a mesma coisa, porém, contados com aquele sotaque que só eles sabem, de causo passa a ser uma história ao rítimo piada.

Abaixo segue alguns causos mineiros, autorizados para publicação pelo autor Eurico de Andrade

A procissão descambou ladeira abaixo

Chegou a semana santa. Tabuí era toda respeito. Ninguém cantava, ninguém ria, ninguém assobiava, homem não mexia com mulher e a recíproca, dizem, era verdadeira. Providência ninguém bebia.
O Manezinho, na sexta-feira santa, convidado de última hora, influenciado pela conselheira dona Ivani, resolve participar da encenação da paixão que o padre Anacleto organizava todo ano na subida da serra da Tormenta. O grande papel do Manezinho era ser soldado romano carregando um chicote.
Três da tarde, sol de rachar, ia o povo de Tabuí ladeira acima em procissão. Todo mundo lá. Até dona Eunice veio de longe com uma penca de filhos. Coroné Hélio, com os olhos fundos de mal dormidos, tinha saído da toca de recém-casado com a menina Patrícia. Professora Sterzinha segurava numa mão o gêmeo catarrento Pedrim e, na outra, o gêmeo Alvim, com um galo na testa.

Os dois, de camisa vermelha e calças curtas listradas de verde e amarelo. Suspensórios azuis. A Eriquinha, com vestido de chita e precata roda, garrada na saia da mãe, ia atrás, limpando com as costas da mão o nariz, que teimava em escorrer, e chutando o calcanhar do Pedrim que só não caía porque grudunhava na mão da mãe. O Dió era o comandante da turma paramentada da Conferência Vicentina. Seu Josafá, dono do Bar Beirão, mais conhecido como Copo Sujo, seguia a procissão trocando, de vez em quando, umas idéias com o prefeito Waldir. Dona Sandra, a endinheirada dona do Ateneu lá da cidade vizinha, se fez presente com um bando de molecas e moleques uniformizados, todos do jardim de infância. Coisa fina mesmo. O fazendeiro Zé Mariano resolveu sair da fila com o nhô Felipe de Paula enquanto tentava fechar um negócio de compra, venda ou troca de garrotes por cachaços. Seu Manoel tava brigando com dona Judite porque esta, distraída, olhando o movimento, trombara nas costas dele, num momento em que a procissão dera uma parada. -“Pois, pois, ó mnina! Não olha por onde anda, opá!”. O estudante, futuro médico Chiquinho ia, todo de branco, olhando pro céu e sonhando com o hospital que um dia iria montar em Tabuí. Seu Brioso, cansado de ser lambe-lambe, não perdia, todo orgulhoso, um ângulo bom para, com a sua triplex, fazer a história da cidade.

A Lu, chefe da Legião de Maria, puxava as cantigas com a voz mais afinada que surgira por aquelas bandas. O Dalton era o encarregado da matraca. Subia e descia o morro, – enquanto a procissão só subia -, arrancando até um chorinho da matraca sagrada. O André, dono do Açougue Vaca Profana, ia remoendo o pensamento, caçando uma maneira de inventar uma lei para extinguir com a Semana Santa, que acabava com o seu lucrinho, já minguado.
Pois bem. O Manezinho sentou praça na procissão como soldado romano. Junto com ele mais uma reca de soldados, uns apóstolos, umas mulheres, o padre Anacleto e o Jesus Cristo. Era a turma da frente da procissão. Subindo o morro. Suando bicas. O Cristo, um morenão forte, tava quase entregando os pontos, tamanho o peso da cruz. Mesmo assim, ia em frente, puxando o povaréu e xingando o carpinteiro.
– Carpinteiro viado! Bem que podia ter feito uma cruz de pendão de piteira, mas não. Faz logo de cerne de aroeira!… disgramado!
O Manezinho, depois de – mesmo proibido – tomar umas talagadas da Providência pra criar coragem, tá lá atrás do Cristo com o seu chicote. Aí resolve puxar conversa.
– Anda mais depressinha aí, ô Jesuis!
Jesus, suando de monte, fedendo inhaca e puto da vida, olha pra trás pra ver de onde vem o atrevimento e quase desmancha o pobre do Manezinho com o olhar. Aí é que aconteceu o reconhecimento. Manezinho descobre que Jesus Cristo é o Rajão, o safado do homem que lhe tomara a primeira e única namorada que tivera na vida. Andou matutando um pouquinho e decidiu, falando com seus botões:
– É hoje, gente! Esse Cristo me paga!…
Aproximou-se mais do Rajão e, de leve, assim como que para experimentar a reação, dá-lhe uma chicotada. Rajão estranhou, mas aceitou resignadamente aquilo, sem entender bem de onde vinha. Outra chicotada. Mais forte. Rajão olhou por baixo da cruz, para trás, procurando padre Anacleto para achar uma explicação. O vigário tinha colocado um lenço pra tampar a careca e seguia contrito rezando seu rosário e nem viu o desespero do Jesus Cristo. Mal Rajão vira pra frente, vem outra chicotada. Ardida. Aí é que ele viu e reparou no franzino do Manezinho. Olha pra ele pedindo clemência. “Émuitumiação prum fi de Deus, sô!”… A procissão continua. Quase todo mundo em silêncio, absorto em seus pensamentos e orações, alguns rezando contritamente. E, lá na frente, o chicote comeu mais uma vez.
– Pára com isso, ô mardito nanico dos infernos!
Quase ninguém ouviu, a não ser o próprio Manezinho, um ou outro soldado, e o Carlão, que fazia o papel do apóstolo Pedro. Rajão cuspia fogo pelos olhos e bafo pelas ventas. Manezinho deu um sorriso amarelo, um tempinho, e lasca sem dó outra chicotada que estalou na poupança quase nua do JC.
A dona Cristina, cozinheira das mais afamadas, dona do restaurante “Garrote Moído”, que virou Madalena, estranhou aquela cena fora dos conformes.

A Cremilda, que fazia o papel de Maria, a mãe do Homem, também estranhou a afronta ao filho. O Fábio Gomes, o apóstolo João, ficou com um pé atrás ao ver a cena.
Foi aí que desandou tudo. O Rajão, no desespero, jogou a cruz prum canto e pulou pra cima do Manezinho. Este, vendo que correr pra baixo era melhor que correr pra cima, desembesta ladeira abaixo, com o Cristo nos calcanhares. Dona Cristina, adivinhando que era briga, corre atrás dos dois para apartar a desavença, seguida logo atrás por Maria toda desconsolada. Os apóstolos Pedro e João, entendendo tudo, vendo que o negócio ia ficar feio, levantam as saias e correm também para não deixarem ninguém matar ninguém em plena sexta-feira santa. Padre Anacleto, quando descobre que alguma coisa não ia bem, vendo a frente sem o Cristo, levanta a batina até a cintura e se manda atrás dos seis, querendo esclarecimento. Os outros atores, que nem ensaio tiveram, pensando que aquilo era parte da encenação, se mandam também, ladeira abaixo, tropeçando uns nos outros.

E o povo, ah, o povo! Assim que os primeiros da procissão dão com aquela correria, vêem o padre Anacleto correndo atrás de Jesus Cristo, começam a se perguntar – o que que se sucede?. E, sem entender nada, tratam de fazer meia volta e desabam também a correr ladeira abaixo. Dona Sterzinha, dona Eunice e a diretora Sandra perderam meninos no meio daquela embolada toda. Uniforme branco de meninos do Ateneu perdeu a cor. Prefeito Waldir gritava “calma, gente!” mas, por via das dúvidas, sem entender o motivo da correria, resolve ligar o motorzinho das canelas ladeira abaixo.

Felipe de Paula perdeu-se do Zé Mariano quando tratavam dos finalmentes para trocar umas galinhas magrelas por 10 jacás de milho. Coroné Hélio, no meio da poeirada toda, ficou rodando, meio tonto, e gritando “benhê! Cadê ocê!”. Seu Manoel só aí é que parou a discussão com dona Judite, porque um se perdeu do outro, cada qual caçando refúgio para se esconder do perigo iminente.

O retratista Brioso foi o único que não correu. Ficou no meio daquela gentalha em fuga, triste, olhando pra sua triplex despedaçada no chão.

Foi assim que a procissão se inverteu. No lugar de chegar lá em cima da Tormenta, foi parar no barraco do Manezinho. Padre Anacleto chegou a tempo, ainda, de livrá-lo das garras do Rajão que, com uma mão só, segurava-o pelo pescoço, sugigando-o contra a parede, enquanto seus pezinhos balançavam a meio metro do chão.

Cada doido com sua sabedoria

Padre Anacleto ia pra Perdição. Estradinha a fora, cheia de buracos e de poeira, dirigindo seu fusquinha velho. Curva em cima de curva. Matão danado em volta. Se Tabuí já é sertão, imagine só o que era o sertão de Tabuí. Fusquinha ora engasgava, ora tremia, ora dava umas rateadas, mas ia indo. Subida então, era um desarranjo. Carrinho aprontava berreiro danado, soltava fumaça por tudo quanto é buraco, mas ia rodando. Seu vigário um tanto quanto pesado.
Aí chegam os dois, Padre Anacleto e o fusquinha, no matão mais fechado. Aquele onde todo mundo falava que tinha umas onças… Bichanas nem podiam sentir cheiro de carne humana que tavam em cima da carniça. De tão fechado o mato, parecia até que tinha escurecido. E, para arrematar, povão dizia que assombração ali também era mato. Sô vigário não acreditava muito nessas coisas não, mas por via das dúvidas, era bom ficar prevenido.

Foi lá que aconteceu a desgraça: pneuzinho careca do fusquinha furou. Rodar com pneu furado prejuízo na certa. Paróquia pobre. Padre pobre. Sair do carro risco grande demais. Coragem pouca. Padre Anacleto craneia, craneia e não acha solução. Nenhum vivente à vista. Ninguém para uma demãozinha. Viu que tava mesmo cagado de arara. Casamento lá na Perdição tinha hora marcada. Noivinha já devia estar chegando à igrejinha na charrete toda enfeitada. Agoniada esperando a grande hora.
Com um friozinho na barriga coitado do padre resolve sair do carro e trocar o pneu. Rezando o Creindeuspadre. Atento a qualquer barulho. Suando frio dentro da batina larga e puída. Olhando de rabeira pra tudo quanto é sombra. Pronto para refugar frente a qualquer sinal suspeito. Trabalhão danado pra tirar pneu furado. Mãos acostumadas a rezar missa, sem traquejo com chaves, macaco e parafusos. E a tralha velha não colaborava: macaco sem óleo, chave da boca maior que as cabeças dos parafusos… Tirou o bicho mais no muque, com uns palavrões seguidos de Padrenossos, do que com a ajuda do macaco e da chave de rodas. Pegou a calota, virou-a de boca pra cima e nela colocou cuidadosamente os quatro parafusos pra não perder nenhum e nem pegarem poeira. Como o carrinho estava meio mole, freio de mão avariado, resolve procurar uma pedra para calçar o danado. Bem no barranco, assim perto duma moitinha, vê uma pedrona boa. Borrando de medo, mas com muita fé em Deus, sai de perto do carro e vai pegá-la. Um pé na frente e o outro atrás, pronto para a refugada. Quando tá com a bruta nas mãos, fazendo força, ouve um barulhão dentro da moita. Sente aquela friagem na espinha, pernas amolecem, coração acelera e os poucos cabelos arrepiam. Mas instinto de sobrevivência fala mais alto e o pobre do Padre Anacleto sai numa desabalada corrida carregando a pedra. Reto no rumo do fusquinha. Chega perto do carro, solta a dita cuja de qualquer jeito e tafuia dentro dele esperando pelo pior.
Fica no quieto tempão danado, a ponto de rezar quase todo o rosário, e… Nada. Bicho nenhum aparece. Nem assombração. Negócio era criar coragem novamente e voltar ao que tinha começado. Melhor pensar que o barulho era de algum lagarto ou de um gato do mato assustado. Assim que o padre sai do carro é que vê a burrada que fez. A pedra caíra na borda da calota e, com a queda, jogou os parafusos pra longe, no meio do mato. Achá-los, impossível. Procurar, nunca. Desespero toma conta do coitado. Xinga umas palavras em italiano, mas rapidinho se arrepende e pede perdão a Deus. Já sujo, molhado de suor, rezando baixinho, com fome, senta lá dentro do carro esperando solução. Noite chegando. Medo agoniado e inconfesso espremendo o peito.
Depois de muito rezar, vê um vulto aparecer no alto do morro. Põe óculos, tira óculos… E o vulto descendo. Devagarinho. Pára, anda, pára de novo. E o Padre Anacleto tremendo e butucando de olho arregalado:
– Ai Dio mio, agora é sombração mesmo!… O que que eu fiz de errado, meu Deus? Virgem!…
O santo homem sente vergonha de si mesmo, do medo que estava sentindo e se lembra até dos sermões que fazia na missa do domingo contra essas crendices pagãs. Na prática teoria era outra. Novamente põe óculos, tira óculos e o vulto vindo. Sem pressa, naquele mato escurecente. Quando o vulto chegou bem perto foi que o Padre Anacleto entendeu que era gente. Gente de verdade. E não é que ele conhecia o dito? Era o Dejalma. O doido lá de Tabuí.
Aí Padre Anacleto se encheu de coragem e saiu do carro. Foi com santo alívio que cumprimentou o recém-chegado:
– Boa tarde, Dejalma! O que que anda fazendo por estas bandas, figlio mio?
– Tarde!
– Tá passeando, Dejalma?
– Pensano!…
– Pensando em quê, Dejalma?
– Cê leva ieu?
O padre pensou consigo mesmo: “que adianta eu querer conversar com este maluco? O maledetto não diz coisa com coisa mesmo!”. Mas, como não queria perder a companhia, mesmo sendo de um lelé da cuca, continuou o papo como se fosse tudo dentro da maior normalidade.
– Levar, levo, figlio! Negócio é que o pneu tá furado…
– Por que ocê num troca?
– Era o que eu ia fazer, Dejalma, mas perdi todos os parafusos desta roda e não tenho outros para colocar no lugar…
Dejalma parece que esquece do que estavam falando. Fica olhando pro mundo. Resolve dar uma volta em torno do carro como se o examinasse com olhos de comprador. Olha daqui, olha dali… Desenha uma careta no vidro empoeirado… Dá uma risada… Abre porta, fecha porta… Pára. Olha pra moita na beira do barranco onde vê um pé de murcha-mulata carregadinho de flor. Vai lá, pega um galhinho e vem cheirando. Sô vigário só de butuca. Quando ia perguntar se podia contar com aquela companhia maluca noite a fora, naquele ermo, Dejalma dá uma aspirada na murcha-mulata e olhando para um ponto fixo no espaço, diz:
– Por que ocê num tira um parafuso de cada rodeira e põe nessa?
Foi tudo muito rapidinho. Padre Anacleto e o Dejalma chegaram à Perdição quando a noiva, triste e chorosa, estava dentro da charrete pronta pra ir pra casa e o povão já indignado com o que seria uma grande desfeita do seu vigário. Ninguém entendeu foi porque o Padre Anacleto estava andando na companhia daquele maluco. Também ninguém perguntou. Povo da Perdição é assim: não é especula, só sabe o que é pra ser sabido.
Autor – Eurico de Andrade

Toró não é Garoa nem Dorô é Procissão

A procissão ia passando solenemente, molenga, pelas pacatas e tortuosas ruas de Tabuí. Muita gente devota. Vigário, coroinhas, beatas, banda de música e matracas a matraquear em homenagem ao Senhor morto. Procissão do Enterro. Plena Semana Santa. Tardezinha. Quase escurecendo.
Povão todo com velas acesas. Irmandades de tudo quanto é nome acompanhavam entre as duas alas da procissão, o esquife mortuário.

Senhoras piedosas desfiavam as contas do rosário. Moças casadoiras, véu branco na cabeça, com os olhos enviesados para a outra fila, a dos homens, onde poderia aparecer algum candidato mais bem apessoado.
E lá na frente da procissão ia o Doroteu, vulgo Dorô. Cabelo pretinho, tingido na véspera, para combinar com o paletó. O membro mais devoto da Irmandade do Santíssimo. Empertigado, caminhando mais duro que santo em procissão, envergando uns enfeites avermelhados por sobre o paletó e o emblema da Irmandade bordado na altura do peito. Sua função era carregar a cruz, pesada pra dedéu, auxiliado por quatro ajudantes. Cada um dos quatro segurava uma corda amarrada à cruz para impedir que ela tombasse deixando o Doroteu em apuros.
O peso da dita cuja era tanto que o nosso herói mal conseguia disfarçar alguns gemidos. Não tinha condições de fazer nenhum movimento, a não ser andar rijo e vertical como uma estátua, sem nem poder virar a cabeça, igual burro de carroça.
Mas tudo ia muito bonitinho, dentro dos conformes, até que começou o aguaceiro. O toró caiu de repente apagando a velaiada e pondo todo mundo a correr. Tudo no maior respeito. Muito silenciosamente. Cada um encontrou casa ou um canto qualquer para não se molhar. O corpo de Cristo achou abrigo debaixo do primeiro alpendre que apareceu. Até o vigário, o Padre Anacleto, com medo de resfriado, concluiu que não era nada demais esperar passar a tempestade dentro do açougue aberto às pressas pelo dono. Ficou lá, paramentado, no meio daquela carnaiada.
Só Doroteu é que não viu o corre-corre e nem a fuga dos seus ajudantes. Não podendo olhar de lado e nem para trás e sem desconfiar do que acontecia, continuou sozinho, tomando chuva no lombo. Da cabeça escorria um caldo preto. Ele nem notava. Todo serioso fez o percurso combinado, realizando por conta própria a procissão do eu-sozinho. Sem velas, sem banda de música, sem vigário, sem gente, sem nada…

João Geada. Velhinho roceiro. Morava no Pindura Saia, a umas três léguas de Santa Maria do Tabuí. Branquicento. Sistemático. Caladinho e trabalhador. E tinha que trabalhar muito, pois, na base do silêncio, conseguiu, com a sua Jandira, fazer quase uma dúzia de barrigudinhos. Tratar de toda aquela cambada não era fácil.
Certo dia velho Geada inventou de ir à capital. Visitar Bel’zonte vez primeira. Fazer umas comprinhas. Isso vinte ou trinta anos atrás. De trem de ferro. Achou tudo muito bom, muito importante, muito bonito. Cada predião danado. Povão medonho na rua. Uma carraiada de dar gosto. Tanto movimento que o velho Geada tava até ficando agoniado. Mas uma coisa deixou o nosso amigo muitíssimo impressionado: o picolé. Gostou exageradamente daquela pedrinha fria que derretia e que tinha um pauzinho enfiado no trazeiro. Chupou um, dois, uma dúzia. De gostos e cores variadas.
– Ô trem bão, sô! Tem base não! Vô até levá uns pra Jandira e pros minino, uai! Imbruia uns vinte aí, ô moço!…
Saiu satisfeito com o pacote de picolés dentro de um saco, junto com uns troços que tinha comprado – açúcar, farinha de trigo e de mandioca, fubá e polvilho azedo – e foi pra estação pegar o trem. Viagem de mais de cem quilômetros.

Deixou o saco perto da porta do carro de passageiros e procurou um cantinho pra se sentar.

Queimou um pitinho, deu umas proseadas com uma velha gorda que o espremia no canto do banco e um coque na cabeça dum neguinho que pisou no calo do seu mindinho do pé.
Numa certa hora, João Geada resolveu dar uma esticada nas pernas e foi ver se estava tudo em ordem com o seu saco de bugigangas. É claro que os picolés tinham virado água, molhando tudo que tava no saco, derretendo até o quilinho de açúcar que viajava junto. Tudo melecado e a água melada escorrendo. Velho Geada entendeu nada. Ficou foi brabo. E mesmo sendo um homem caladinho e tímido, não levava desaforo para casa. Foi por isso que, fulo da vida, gritou pra todo mundo ouvir:
– Cambada de viado fedaputa ! Além de chupá meus picolé, inda mijaro no meu saco!…

Azarado nem um pouquinho

Azarado nem um pouquinho
Bentão arranjou namorada. Meio passada da idade, mas dava ainda para uma boa meia sola. Um dia resolve conhecer a família da bichinha. Arreia seu melhor cavalo, calça bota e espora, põe o 38 na cintura e se manda estrada a fora. Três léguas. Chega já com o sol baixo, a tempo de assistir ao futuro sogro tirar o leitinho da tarde das últimas vaquinhas magrelas.

Bentão conheceu o povo e, meio sem graça, fica por ali olhando uma coisa ou outra e até capiscando de trivela as belas pernas da cunhada. Sem assunto e sem o que fazer, resolve que tem que ir embora. É muito longe, pode chover, mãe vai ficar preocupada, tem compromisso amanhã cedo e outros babados de desculpa. O sogro e a sogra não concordam. Não querem perder um genro com tanta facilidade.

– Não senhor! Sem jantá ocê num vai!…

Envergonhado e a contragosto, mesmo com fome, aceita o convite. A sogra prepara, aliás, já vinha preparando um senhor jantar. Põe à mesa, além da toalha de crochê mais chique que tinha, umas louças das mais bonitas acompanhadas de muita faca, muita colher e garfo de montão. Apetrechos com os quais Bentão não tinha muita intimidade. Ao ir pra mesa, ele nem sabia onde botar as mãos, de tão sem jeito. Mas assim que o sogro começa com seus papos de vacas e bois e cavalos e roça e pescarias e diabo a quatro, o Bentão fica mais animado e chega até a dar um bom desfalque no comestível. Bom mesmo Bentão achou aqueles catocos de suã. Nunca os comeera tão gostosos.

Pena que tinham mais osso que carne. E aquele miolinho!… Ah! Aquele miolinho!… Bentão não resistiu. Num instante em que ninguém olhava, resolve enfiar o dedo mínimo no buraco do osso para retirar o tutano, coisa de que ele gostava demais da conta, desde menino. Só que o dedo engastaiou no buraco do osso. Antes que alguém visse sua situação melindrosa, ele enfia a mão debaixo da mesa, esperando melhor oportunidade e continua a corresponder ao prosório usando uma só mão para comilança e bebelança.

Foi aí que apareceu o leão, cachorro grandão e muito chegado num osso de suã. O danado do bicho foi logo se enfiando debaixo da mesa antes que Bentão o visse e tomasse algum providenciamento. Leão, sem nem pensar muito, abocanha aquele osso disponível entre as pernas do visitante e se propõe a sair correndo. Só que o dedo do Bentão tava ainda no meio do osso, bem preso, já meio inchado.

O baque foi tão grande que o moço foi sendo puxado na marra. E aí sua espora garrou na toalha de crochê e ele foi arrastando tudo, derrubando pratos de louça com todos os acompanhamentos. Sogro, sogra e filhas assistem embasbacados à saída repentina do pretendente. Leão quase come junto com o osso um pedaço do dedo do rapaz.

Você pensa que terminaram as desgraças do Bentão? Escuta só. Com mais vergonha ainda e puto da vida ante tamanha desfeita, resolve ir embora sem se despedir de ninguém. Mas, assim que vai montar no cavalo, com pressa e sem nenhum cuidado, o revólver se prende em não sei o quê e escapa um tiro dos mais potentes. Cavalo se assusta tanto que sai em desabalada correria deixando Bentão caído de quatro no meio da fedentina de estrume e urina das vacas. Todo melecado. O homem não teve outra solução. Saiu correndo atrás do cavalo, cuspindo fogo pelas ventas e nunca mais botou os pés por aquelas bandas.

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