Primeira Capital


Mariana foi a primeira cidade e primeira capital de Minas Gerais, além de a única de traçado planejado entre as cidades coloniais mineiras. Em julho de 1696, uma bandeira comandada pelo Coronel Salvador Fernandes Furtado acampou nas margens do Ribeirão do Carmo. Com o início da mineração, os bandeirantes se fixaram no lugar criando o arraial Ribeirão do Carmo. Mais tarde, outros moradores se fixaram fazendo surgir novos povoados. Em 1711, a Vila Ribeirão do Carmo passou a ser a Capital da Província, apesar da sede continuar a ser em São Paulo de Piratininga. Em 1745, a vila foi elevada à categoria de cidade, com o nome de Mariana.

A cidade apresenta traçado com ruas retas e praças retangulares, o que pode ser notado ainda hoje, apesar de sua expansão e da constante descaracterização que vem sofrendo. Suas principais atrações são a Catedral de Nossa Senhora da Assunção, a Sé (uma das mais antigas igrejas mineiras), o Seminário Maior de Mariana, de estilo neoclássico, o conjunto de sobrados, localizado na Rua Direita, com casas comerciais no térreo e sacadas no andar superior, sendo uma delas a casa onde viveu o poeta Alphonsus Guimarães, e as pinturas sacras de Manoel da Costa Athaide.

Existem lugares onde tudo tem início, nos quais homens fixam raízes e começam a escrever uma história. Transformam o mundo e também a si mesmos. O Estado de Minas Gerais, como o conhecemos hoje, nasceu às margens de um formoso ribeirão, em uma cidade com vocação para o fascínio e para o poder. Mariana, a primeira capital de Minas, é um desses lugares, onde tudo começou…

Os primeiros desbravadores de Minas deslumbravam-se com o que iam descobrindo pelo caminho. Talvez por fé ou falta de criatividade foram batizando cada recanto descoberto com nomes de santos, ao sabor dos calendários. Ribeirão do Carmo não fugiu a esta regra. O nome se deve ao dia de consagração de Nossa Senhora do Carmo. Seria fundado ali, já em 1703, um arraial que teria função estratégica no jogo de poder estabelecido pelo ouro.

Mariana é hoje uma das mais importantes cidades do Circuito do Ouro. Guarda, junto com seus distritos, interessantes relíquias do tempo em que começou a ser desenhada a história das Minas Gerais. No séc. XVIII surgiu nas montanhas o primeiro Estado com características modernas do Brasil, contrastando com a estrutura inerte das fazendas de engenho do litoral. Administração burocrática, fiscalização e arrecadação de impostos…

Além disso uma sociedade complexa e bastante democrática para os moldes da época. Em Minas escravos podiam se tornar senhores, algo até então impensável. Bastava para isto encontrar sua pepita, ou saber se aproveitar das carências do mercado consumidor emergente. Escultores, carpinteiros, ferreiros e demais profissionais eram bem-vindos. A mobilidade social não era fácil, mas existia uma brecha.

Em 1745 a Vila do Ribeirão do Carmo, não mais arraial, foi elevada à condição de cidade, rebatizada Mariana. Era uma homenagem a D. Maria Ana D’Austria, esposa de D.João V. Mesmo assim Mariana, no dicionário histórico de Minas Gerais, significa também “primeira”. Argumentos não faltam: primeira vila, capital, cidade projetada e sede de bispado… Gerou e projetou talentos como Manuel da Costa Ataíde (pintor sacro), Cláudio Manuel da Costa (poeta e inconfidente), Frei Santa Rita Durão (autor do poema “Caramuru”), Padre Joaquim da Rocha (inconfidente)…

No dia 16 de julho de 1696 a Bandeira comandada por Salvador Fernandes Furtado de Mendonça fixou uma base nas margens de um ribeirão do Carmo. Acompanhado de alguns homens, entre eles Miguel Garcia, percebeu a existência de considerável quantidade de ouro na região, denunciada pelo pó amarelo encontrado no leito e no fundo do rio, foi erguida uma capela. Nascia Mariana, uma menina plebéia que depois se tornaria rainha.
O primeiro arraial foi Ribeirão do Carmo, depois se sucederam outros como Camargos, Furquim, Cachoeira do Brumado, Bento Pires etc. Toda a região se revelaria uma imensa reserva de ouro, atraindo um grande número de pessoas. Vila Rica (atual Ouro Preto), Catas Altas, Sabará, Ouro Branco, Caeté, Congonhas, além do próprio arraial, produziam fortunas. Cresceu o olho da Coroa, que decidiu agir rápido e energicamente. A Guerra dos Emboabas, entre paulistas e portugueses, acelerou a tomada desta decisão. Determinou que o Capitão Antônio de Albuquerque se dirigisse à região. Em 1711 o arraial foi elevado à vila, a primeira de Minas, e nela se estabeleceu a capital da então Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, criada em 1709. A sede administrativa permanecia em São Paulo do Piratininga.

Em 1720 Minas foi desmembrada de São Paulo e a Vila Rica de Albuquerque determinada a nova capital da província. A Vila Real do Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo não perderia a importância e em 1745 seria elevada à cidade, com o nome de Mariana. Para elaborar um projeto urbanístico para a nova cidade foi contratado o brigadeiro José Fernandes Pinto de Alpoim. O experiente engenheiro militar tinha em seu currículo diversas obras executadas no Rio de Janeiro, capital da Colônia. Tomava forma a primeira cidade planejada de Minas, com ruas em linha reta e praças retangulares.

Mariana cumpria mais uma vez com sua vocação. Mas não era só. Ainda em 1745 o Papa Bento XIV fez de Mariana a sede do primeiro Bispado de Minas Gerais, desmembrado da diocese do Rio de Janeiro. Veio do Maranhão o bispo D.Frei Manoel da Cruz, tomando posse na Sé Catedral em 1748. Por este fato Mariana é considerada também berço da religiosidade mineira. A elevação para Arcebispado se deu em 1906.

Toda a viagem do bispo, do Maranhão até Mariana, entrou para a história como uma das maiores epopeias empreendidas até então pelo interior do Brasil Colônia. D.Manoel preferiu não enfrentar o mar. O longo percurso por terra durou 14 meses, envolvendo uma comitiva de muitos homens. Os perigos e dificuldades tinham presença constante: a aridez do sertão, rios selvagens, índios vorazes, doenças, chuvas torrenciais. O bispo era muito bem recebido pelo caminho pelas pequenas e perdidas comunidades por onde passava, todos queriam conhecê-lo. Nunca tinham visto tão importante figura antes. Já em Minas passou por Sabará, Itabirito e Vila Rica. Finalmente, no dia 15 de outubro de 1748, D.Manoel entrava triunfante em Mariana.

A chegada e posse do bispo são um capítulo à parte na história da cidade. Nunca se tinha visto tamanha pompa e ostentação nas Minas Gerais. O espetáculo proporcionado pelas autoridades e pela população pode ser percebido nos relatos deslumbrantes de quem esteve presente. Gente chegava de todos os cantos. A praça da Sé foi toda iluminada com lâmpadas de azeite. Das sacadas dos sobrados pendiam toalhas bordadas, finos tapetes e colchas. Ruas foram enfeitadas com flores e jardins. D.Manoel chegou à catedral para a posse montado em um cavalo branco, depois de magnífico desfile pelas ruas da cidade. A narração detalhada deste acontecimento pode ser encontrada no documento “áureo Trono Episcopal”.

Com a transferência da capital da província para Vila Rica, Mariana entrou em relativa decadência. A medida mais importante para reverter este quadro foi sua escolha para sede do Bispado de Minas Gerais. Sua criação ia de encontro a outro objetivo: organizar a atividade religiosa, coibindo os atos abusivos do clero. Isto acontecia pela distância do Rio de Janeiro, a cujo Bispado estava ligado. Muitos padres se ocupavam mais em encher os próprios bolsos do que em converter almas pagãs. Alguns se enriqueciam mais que os delegados da Coroa, e não havia muito o que se fazer pois, a população não podia sequer pensar em argumentar ou mostrarem descontentamento, pois naquela época o clero também mandava matar quem quer que fosse que iam contra seus feitos.

A Vila do Ribeirão do Carmo foi elevada à cidade para receber o bispo. A condição gerou a necessidade de planejamento. Novas ruas e traçados conscientes. Aos majestosos prédios públicos e privados somariam-se as igrejas, fabulosas. Os rumos de Mariana passaram a ser ditados pela fé. Em Minas Gerais era proibido o estabelecimento de ordens religiosas. Sendo assim os padres eram todos seculares, ou seja, não tinham feito o voto monástico. A província aos poucos presenciava o florescer das Ordens Terceiras ou irmandades. Toda a população mineira, sem exceção, filiou-se a essas confrarias. A sociedade se dividia em brancos, pardos, negros e suas respectivas irmandades.

Não demorou muito para que estas instituições se combatessem, já que eram independentes como organizações civis. Os padres foram reduzidos a meros empregados. Regras segregavam os negros dos brancos, pardos dos brancos, negros dos pardos. Esse clima de hostilidade impulsionaria a arquitetura mineira, campo esplêndido para exercer a rivalidade. Cada qual procurava construir a igreja mais bonita e mais fabulosa. Simbolizavam na sua grandiosidade o prestígio que desfrutavam. Contratavam mestres, elevavam a arte aos céus. E a as pessoas acreditavam que todos aqueles ornamentos eram para Deus, e em suas humildes crenças acabavam pagando altos impostos que eram exigidos.

Mariana foi um dos palcos privilegiados da árdua disputa. As ricas irmandades do Carmo e de São Francisco levantaram suas igrejas a poucos metros uma da outra. Já as irmandades das Mercês e do Rosário, ambas de homens pretos, foram empurradas para lugares distantes da praça principal. Nem por isso são menos belas. Mas naquela época os negros não eram como pessoas e sim tratados como peças e propriedades. Eles não podiam entrar nas igrejas dos brancos, então, eles mesmos foram construindo suas próprias igrejas para poderem adorarem a Deus.

O conjunto arquitetônico da primeira cidade de Minas foi desenhado pelo poder do ouro, do Estado e da fé. Em suas paredes, tetos e ornamentação está impregnado um complexo jogo de interesses, daqueles que sempre estiveram intimamente ligados às relações humanas. Em Mariana uma sociedade queria nascer e conseguiu. Os sobrados, as igrejas, as ruas, chafarizes, as montanhas perfuradas são testemunhas disso. Tanto que podemos observar nas igrejas barrocas muito ouro que foram acrescentado nos altares de muitas igrejas mineiras. Na medida que o metal amarelo era encontrado, muitos núcleos e povoados surgiam às margens de rios, ribeirões e depois nas encostas. Corria o início do século XVIII.

Os bandeirantes populavam toda a região aurífera, lançando as bases das atuais cidades mineiras. Tempos difíceis aqueles! Uma terra virgem, sem o mínimo conforto, onde tudo tinha que começar do zero. Por fé e também  por falta do que fazer, ergueram as igrejas. As missas foram durante muito tempo o principal acontecimento social dos mineiros. Seguiam-se as festas religiosas e demais rituais litúrgicos. Os templos pareciam brotar do chão, faziam-se presentes em todo e qualquer povoado que surgia. A arquitetura em Minas dava seus primeiros passos. De tosca foi tomando contornos mais sofisticados e únicos. E hoje são patrimônio históricos, que atrai visitantes de vários lugares do mundo que se encantam com a história, a cultura, a culinária e principalmente com a calma e a quietude das regiões, e do povo que tem a maior fama de hospitaleiro.

No entorno do arraial do Ribeirão do Carmo nasceram outros povoados, atuais distritos de Mariana. Por muito tempo esquecidos, hoje estão sendo redescobertos. Escondem verdadeiras jóias arquitetônicas, tão importantes quanto as encontradas em cidades coloniais já consagradas. Sem eles a história de Minas é contada apenas pela metade. Pequenos e relativamente parados no tempo, dão uma ideia mais próxima de como eram os antigos arraiais. Podemos destacar os distritos de Ribeirão do Carmo, Camargos, Santa Rita Durão, Cachoeira do Brumado, Cláudio Manoel, Monsenhor Horta, Padre Viegas, Passagem de Mariana e Furquim.
as-grandes-galerias-com-colunas-de-apoio-sao-exemplo-do-modelo-industrial-de-exploracao-de-ouro-na-mina-da-passagem-em-mariana-minas-gerais-1393459491199_956x500Atração imperdível é a Mina da Passagem, localizada a cinco quilômetros da cidade é uma das pouquíssimas minas de ouro abertas à visitação no Brasil, guardando segredos e mistérios que encantam a todos. A descida para as galerias subterrâneas se faz através de um trolley, num percurso de 315 metros, chegando a 120 metros de profundidade, onde se vê um maravilhoso lago natural, grutas e estalactites  moldadas na época da mineração e agora moldadas pela própria natureza.

lugares-para-viajar.jpgNo interior da mina a temperatura é estável, entre 17 e 20 graus centígrados em qualquer época do ano. Suas galerias têm cerca de 30 quilômetros de extensão, ligando subterraneamente Ouro Preto e Mariana. Desde sua fundação no início do século XIX, até 1984, foram retiradas aproximadamente 35 toneladas de ouro. Não é preciso muito esforço para recriar na imaginação o bater ruidoso das picaretas, o vozerio dos mineiros e o explodir de pólvora no seu interior. Que além de perigoso para os que trabalhavam na época sem uso de tecnologias atuais, muitos morriam em acidentes e alguns nem eram encontrados.

as-grandes-galerias-com-colunas-de-apoio-sao-exemplo-do-modelo-industrial-de-exploracao-de-ouro-na-mina-da-passagem-em-mariana-minas-gerais-1393459491199_956x500Na Rodovia dos Inconfidentes, caminho para Ponte Nova, existe um roteiro por vários distritos. Cachoeira do Brumado, além da queda d’água, oferece um artesanato cada vez mais conhecido pela qualidade de seus produtos. Monsenhor Horta e Furquim têm as igrejas de São Caetano e Bom Jesus do Monte, respectivamente, ambas tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A de Bom Jesus do Monte tem em frente um Marco de Posse Português raríssimo. Em direção a Santa Bárbara estão outros distritos importantes.

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Fontes: http://cscj-7ano-onn.blogspot.com.br/2010/03/trabalho-de-geografiaso-nao-tem-ultima.html

http://www.terrazul.org.br/Caminho7/relatorio.pdf

http://serrademinas.blogspot.com.br/2010_01_01_archive.html

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